Por Dani Silva · 25 de junho de 2026 · 10 min de leitura
A criatividade é um dos temas mais discutidos e menos entendidos da vida contemporânea. Todo mundo quer ser criativo, toda empresa quer uma cultura criativa, e quase ninguém sabe exatamente como cultivar uma ou outra. Dois livros respondem a essa pergunta de ângulos completamente diferentes: um pelo lado das organizações, o outro pelo lado do indivíduo. Criatividade S.A., de Ed Catmull, cofundador da Pixar, e Roube Como um Artista, de Austin Kleon, abordam a criatividade de formas que se complementam tão bem quanto o raro e o prático.
Catmull pergunta: como você constrói uma empresa onde a criatividade não é sufocada pelo sucesso e pela pressão comercial? Kleon pergunta: como você, sendo uma pessoa comum sem um talento óbvio, encontra sua voz criativa? As respostas dos dois convergem num ponto surpreendente — criatividade não é dom, é processo.
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Sobre os Autores
Ed Catmull é cientista da computação e cofundador da Pixar Animation Studios. Criatividade S.A., publicado em 2014 em coautoria com Amy Wallace, é parte memória e parte manual de gestão criativa. Catmull construiu a Pixar com Steve Jobs e John Lasseter, e o livro é o relato de como uma empresa criativa sobrevive ao crescimento, à pressão por resultados e à tentação de repetir o que já funcionou. Toy Story, Finding Nemo, Up — todos saíram de uma cultura organizacional que Catmull descreve em detalhe.
Austin Kleon é escritor e artista americano. Roube Como um Artista, publicado em 2012, nasceu de uma palestra e virou fenômeno de vendas. Em menos de 200 páginas com ilustrações, Kleon propõe dez princípios para quem quer criar mas não sabe por onde começar — ou para quem já cria mas sente que não tem “permissão” para chamar o que faz de arte. O livro é pequeno, rápido de ler e tem uma taxa de mudança de perspectiva surpreendentemente alta.
O Que Cada Livro Defende
Criatividade S.A. parte da premissa de que a criatividade é frágil em ambientes organizacionais — e que a maioria das empresas, mesmo as que foram criadas por pessoas criativas, tende a criar sistemas que a sufocam. Catmull descreve o “Braintrust” da Pixar — reuniões regulares onde qualquer filme em produção é submetido a crítica honesta e brutal de colegas, sem hierarquia, sem obrigação de seguir as sugestões, mas com a obrigação de ouvir. Ele fala também sobre o papel do fracasso como parte do processo criativo legítimo — não como vergonha a ser escondida, mas como informação necessária.
Roube Como um Artista parte de uma provocação: nada é completamente original. Todo artista começa copiando influências antes de encontrar a própria voz. O “roubo” de Kleon não é plágio — é absorção consciente: estude o que admira, combine influências de formas novas, faça o trabalho que você gostaria de encontrar mas que ainda não existe. Os dez princípios incluem: faça coisas paralelas ao seu trabalho principal, compartilhe o processo não só o resultado, e construa uma “coleção de curiosidades” — um arquivo de tudo que te inspira.
Onde os Dois Concordam — e Onde Divergem
Os dois concordam que criatividade não acontece numa câmara isolada de inspiração pura. Ela é resultado de processo, de hábito, de exposição a influências e de ambientes que a permitem ou a sufocam. Os dois também rejeitam o mito do criativo solitário de gênio — tanto Catmull quanto Kleon enfatizam colaboração, feedback e a importância de mostrar o trabalho para outros.
A diferença está no nível de análise. Catmull pensa em organizações — como líderes criam estruturas que protegem a criatividade das pressões que naturalmente a destroem. Kleon pensa no indivíduo — como uma pessoa específica, num momento específico, encontra o que criar e como criá-lo. Um é sobre gestão criativa; o outro é sobre prática criativa pessoal.
O Que Cada Livro Deixa em Aberto
Criatividade S.A. é fascinante mas específico ao contexto da Pixar e de grandes estúdios criativos. Muitas das estruturas que Catmull descreve — o Braintrust, as retrospectivas pós-projeto, as reuniões “Notes Day” com centenas de funcionários — exigem escala e recursos que um freelancer ou uma equipe pequena não tem. A transposição dos princípios para contextos menores é possível, mas exige trabalho do leitor.
Roube Como um Artista é inspirador mas superficial em alguns dos seus conselhos. “Faça o trabalho você quer ver no mundo” é ótimo como princípio mas não resolve a questão prática de como sustentar isso economicamente. Kleon endereça isso parcialmente em continuações (Show Your Work, Keep Going), mas o livro original deixa algumas perguntas em aberto.
Comparação Direta
| Aspecto | Criatividade S.A. | Roube Como um Artista |
|---|---|---|
| Foco | Organizações e cultura criativa | Indivíduo e prática criativa |
| Tom | Reflexivo, denso, memorialístico | Leve, visual, provocativo |
| Tamanho | ~300 páginas | ~160 páginas |
| Melhor para | Líderes de equipes criativas | Qualquer pessoa que quer criar mais |
| Princípio central | Criar ambiente seguro para criatividade | Absorver influências e encontrar voz própria |
| Aplicação imediata | Estruturas de feedback e cultura de equipe | Hábitos diários e mentalidade criativa |
Qual Ler Primeiro?
Se você lidera uma equipe criativa — ou qualquer equipe que precisa inovar — comece por Criatividade S.A. A perspectiva de Catmull sobre como a cultura organizacional pode tanto criar quanto destruir criatividade é mais urgente quanto mais alto for seu nível de responsabilidade.
Se você é um criativo individual — escritor, designer, músico, fotógrafo, empreendedor — ou simplesmente alguém que quer criar algo mas não sabe por onde começar, comece por Roube Como um Artista. É uma leitura de duas horas que muda a forma como você pensa sobre origininalidade e permissão para criar.
O ideal é ler os dois: Kleon para encontrar o processo pessoal, Catmull para entender como protegê-lo dentro de uma organização.
→ Ser criativo com foco é diferente de ser criativo com dispersão — esse par resolve a equação
Criatividade S.A. me mostrou como a Pixar protege o processo criativo. Roube Como um Artista me mostrou que o processo começa muito antes do que pensamos. Li os dois e olhei para minha própria rotina criativa de outra forma. — Dani Silva
Perguntas Frequentes

Conclusão
Criatividade S.A. e Roube Como um Artista chegaram à criatividade pelos dois lados do mesmo espelho: Catmull pelo lado da organização que precisa sustentá-la; Kleon pelo lado do indivíduo que precisa cultivá-la. Os dois juntos revelam que criatividade não é dom nem mistério — é processo, ambiente e permissão.
E talvez a descoberta mais libertadora dos dois seja esta: qualquer pessoa, em qualquer nível de talento, pode criar mais e melhor se entender as condições que tornam a criatividade possível. Kleon te dá a mentalidade; Catmull te dá o ambiente. O que você faz com isso depende de você.
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Criatividade S.A., Ed Catmull, Editora Rocco Roube Como um Artista, Austin Kleon, Editora Rocco.
© 2026 · Dois Livros e Um Tema · Resenhas Comparativas · Análise de Livros · Leitura Crítica — Este conteúdo tem caráter informativo e analítico. As resenhas não substituem a leitura das obras originais nem orientação profissional nas áreas abordadas.
Dani Silva é a criadora do blog *Dois Livros e Um Tema*, um espaço dedicado à conexão entre histórias. Apaixonada pela leitura e pela escrita, Dani compartilha análises sensíveis, comparações literárias e temas que atravessam diferentes obras, sempre buscando transformar livros em experiências mais profundas e significativas para seus leitores.







