Por Dani Silva · 20 de julho de 2026 · 12 min de leitura
O Estrangeiro, de Albert Camus, publicado em 1942, e A Náusea, de Jean-Paul Sartre, publicado em 1938, são dois dos romances que mais ajudaram a definir o existencialismo francês do século vinte, embora os dois autores tenham, mais tarde, divergido publicamente sobre filosofia e política, encerrando uma amizade que já nascera tensa. Os dois livros colocam o leitor diante de protagonistas que percebem, de formas diferentes, que o mundo não oferece sentido pronto e que cabe a cada pessoa lidar com esse vazio sem garantias externas.
Meursault, protagonista de O Estrangeiro, atravessa a própria vida, incluindo a morte da mãe e um assassinato que comete quase sem premeditação clara, com uma indiferença que escandaliza todos à sua volta. Antoine Roquentin, narrador de A Náusea, é tomado por episódios de enjoo físico e existencial diante da simples constatação de que as coisas existem, sem motivo ou justificativa que as sustente além do próprio existir.
Camus chama sua filosofia de absurdo, descrevendo a tensão entre o desejo humano de sentido e a ausência desse sentido no mundo. Sartre desenvolve, a partir de A Náusea, conceitos centrais do existencialismo que detalharia depois em obras filosóficas, sobretudo a ideia de que a existência precede a essência, ou seja, que ninguém nasce com um propósito definido, apenas o constrói através das próprias escolhas.
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Sobre os Autores
Albert Camus nasceu na Argélia francesa em 1913, numa família pobre, e cresceu sem o pai, morto na Primeira Guerra Mundial quando Camus tinha apenas um ano de idade. Tornou-se jornalista, romancista e filósofo, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, um dos mais jovens vencedores da história do prêmio. Morreu em 1960, aos 46 anos, num acidente de carro, levando consigo, segundo relatos, uma passagem de trem não utilizada para a mesma viagem.
Jean-Paul Sartre nasceu em Paris em 1905 e se tornou uma das figuras centrais da filosofia francesa do século vinte, junto à também filósofa e escritora Simone de Beauvoir, com quem manteve uma relação não convencional ao longo da vida. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1964, mas recusou o prêmio publicamente, alegando que um escritor não deveria se deixar transformar em instituição. Morreu em Paris em 1980.
O Que Cada Livro Defende
O Estrangeiro
O romance começa com uma das frases de abertura mais conhecidas da literatura francesa: Meursault recebe a notícia da morte da mãe e narra o fato com um distanciamento emocional que já antecipa o tom do livro inteiro. Durante o funeral, ele não chora, fuma um cigarro perto do caixão e, pouco depois, inicia um relacionamento e vai ao cinema, comportamentos que a sociedade ao redor interpreta como prova de monstruosidade moral.
A segunda parte do livro descreve o assassinato que Meursault comete na praia, num momento confuso de calor excessivo e luz intensa, e o julgamento que se segue, no qual o tribunal parece mais interessado em condenar sua frieza emocional diante da morte da mãe do que o próprio crime cometido. Camus usa a história para defender que o mundo é indiferente ao sentido que tentamos impor a ele, e que Meursault, ao se recusar a fingir emoções que não sente, expõe uma honestidade brutal que a sociedade não sabe tolerar.
A Náusea
Antoine Roquentin é um historiador que vive isolado numa cidade francesa fictícia, trabalhando numa biografia que nunca avança de fato, e que começa a sentir episódios físicos de enjoo sempre que percebe, com clareza incômoda, que os objetos ao redor simplesmente existem, sem propósito ou justificativa anterior a essa existência bruta. Uma raiz de árvore, uma pedra na praia, a própria mão, tudo se torna, em certos momentos, evidência insuportável de que nada tem sentido garantido de antemão.
Sartre constrói o romance como narrativa filosófica disfarçada de diário pessoal, onde Roquentin tenta, sem muito sucesso, encontrar alívio através da arte, da memória ou de relacionamentos. O livro defende que reconhecer essa ausência de sentido prévio, ainda que desconfortável, é o primeiro passo necessário para que a pessoa possa, depois, construir sentido próprio através de escolhas e ações genuínas.
Onde Concordam
Os dois livros concordam que o mundo não oferece sentido pronto, embalado e garantido antes da existência de cada pessoa. Meursault percebe essa ausência através da indiferença com que tudo, inclusive a própria morte da mãe, parece acontecer ao redor dele. Roquentin percebe essa mesma ausência através do enjoo físico que sente diante da simples constatação de que as coisas existem sem razão evidente.
Onde Divergem
A divergência está na reação de cada protagonista a essa constatação. Meursault aceita a ausência de sentido com indiferença quase serena, sem buscar ativamente construir algo no lugar do vazio, o que o torna, segundo a leitura de Camus, um herói absurdo a sua maneira. Roquentin sofre de forma muito mais consciente e angustiada diante da mesma constatação, e o livro sugere, especialmente no final, que ele ainda busca uma saída possível através da criação artística, diferença importante entre o absurdo aceito de Camus e o existencialismo mais voltado à ação de Sartre.
Tabela Comparativa
| Aspecto | O Estrangeiro | A Náusea |
|---|---|---|
| Ano de publicação | 1942 | 1938 |
| Protagonista | Meursault | Antoine Roquentin |
| Reação ao vazio existencial | Indiferença e aceitação serena | Enjoo físico e angústia consciente |
| Conceito filosófico central | Absurdo | Existência precede a essência |
| Estrutura narrativa | Romance dividido em julgamento | Diário pessoal e filosófico |
| Saída sugerida | Aceitação sem fuga | Possível redenção pela criação artística |
O Que Um Completa no Outro
O Estrangeiro mostra a indiferença como resposta possível diante de um mundo sem sentido garantido, enquanto A Náusea mostra a angústia como resposta igualmente válida diante da mesma constatação. Lidos juntos, os dois livros revelam que o existencialismo francês não oferece uma única receita emocional para lidar com a ausência de sentido prévio, e que tanto a frieza de Meursault quanto o desconforto de Roquentin são formas legítimas, embora muito diferentes, de encarar a mesma condição.
Vale notar que a relação entre os dois autores acrescenta uma camada extra de interesse à comparação: Sartre escreveu uma análise elogiosa sobre O Estrangeiro pouco depois de sua publicação, mas, anos mais tarde, os dois romperam publicamente por divergências políticas profundas, sobretudo sobre a posição a tomar diante do comunismo soviético, mostrando que mesmo pensadores que compartilham bases filosóficas semelhantes podem divergir de forma irreconciliável quando a filosofia encontra a política real.
Essa proximidade inicial seguida de rompimento espelha, de certa forma, a própria relação entre os dois romances: nascem de uma base filosófica comum, a constatação de que o mundo não garante sentido antecipado, mas se desenvolvem em direções que se afastam cada vez mais conforme cada autor aprofunda sua própria resposta a essa constatação. Camus caminha em direção a uma aceitação quase serena do absurdo, recusando soluções totalizantes; Sartre caminha em direção a um compromisso mais explícito com a ação política e a responsabilidade coletiva, distanciando-se da indiferença que caracteriza Meursault. Essa trajetória divergente ajuda a explicar por que, décadas depois, os dois autores continuam sendo lidos de formas tão diferentes: um como símbolo de aceitação serena diante do absurdo, outro como símbolo de engajamento ativo diante das escolhas que a existência impõe a cada pessoa.
Para Quem é Cada Livro
O Estrangeiro é recomendado para quem busca uma leitura curta, direta e perturbadora, ideal como primeira introdução ao existencialismo francês, e para quem se interessa por crítica social ao julgamento moral baseado em aparências e convenções emocionais.
A Náusea é recomendado para quem busca uma leitura mais densa e filosoficamente explícita, com interesse genuíno em fenomenologia e na construção dos conceitos que Sartre desenvolveria mais tarde em obras como O Ser e o Nada, publicada anos depois.
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Meursault não sofre com o absurdo — ele só vive dentro dele, sem muito drama. Roquentin é outra coisa: a existência das coisas ao redor dele vira desconforto físico, náusea mesmo. Li os dois e fico sempre com a sensação de que Camus achava o vazio habitável e Sartre achava que ele te obrigava a fazer alguma coisa. Não sei qual dos dois me assusta mais. — Dani Silva
Perguntas Frequentes

Duas Reações Possíveis ao Mesmo Vazio
Meursault atravessa a vida sem se permitir perturbação visível diante da ausência de sentido garantido, até o momento em que, já condenado, encontra uma forma estranha de paz ao aceitar plenamente o absurdo da própria existência. Roquentin nunca alcança essa mesma serenidade ao longo do livro, permanecendo em estado de busca incômoda até as últimas páginas. Entre a aceitação silenciosa de um e a inquietação persistente do outro, os dois romances continuam oferecendo, quase um século depois, duas respostas possíveis para a mesma pergunta sem resposta definitiva: o que fazer quando o sentido não vem pronto.
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Dani Silva é a criadora do blog *Dois Livros e Um Tema*, um espaço dedicado à conexão entre histórias. Apaixonada pela leitura e pela escrita, Dani compartilha análises sensíveis, comparações literárias e temas que atravessam diferentes obras, sempre buscando transformar livros em experiências mais profundas e significativas para seus leitores.







