Por Dani Silva · 18 de julho de 2026 · 12 min de leitura
Macbeth, de William Shakespeare, escrito por volta de 1606, e O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, publicado em 1925, separados por mais de três séculos, contam a mesma história estrutural com roupagens completamente diferentes: um homem comum decide que merece algo que está fora do seu alcance natural, e essa decisão termina destruindo tudo o que ele já tinha conquistado antes de começar a perseguir mais.
Macbeth é general respeitado na Escócia medieval que, instigado por uma profecia e pela própria esposa, assassina o rei para tomar o trono, iniciando uma espiral de paranoia e violência que consome a si mesmo e a quem ama. Jay Gatsby é um homem que reconstrói completamente a própria identidade e acumula fortuna obtida por meios obscuros, na esperança de reconquistar um amor perdido na juventude, Daisy Buchanan, sem perceber que a versão idealizada dela e do próprio passado nunca poderá corresponder à realidade.
Shakespeare escreve sobre ambição política num mundo de sangue, espadas e profecias sobrenaturais; Fitzgerald escreve sobre ambição social num mundo de festas, jazz e riqueza ostentada na Era do Jazz americana. Os métodos mudam completamente, mas o resultado final, a autodestruição de quem confunde desejo com destino, permanece quase idêntico.
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Sobre os Autores
William Shakespeare nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra, em 1564, e se tornou o dramaturgo mais influente da língua inglesa, com peças que continuam sendo encenadas e estudadas mais de quatro séculos depois. Macbeth foi escrito durante o reinado de Jaime I, que tinha interesse pessoal em bruxaria e ascendia ao trono escocês ao mesmo tempo, o que provavelmente influenciou a escolha do tema e do cenário escocês da peça.
F. Scott Fitzgerald nasceu em Saint Paul, Minnesota, em 1896, e viveu boa parte da vida adulta tentando, sem sucesso duradouro, sustentar financeiramente o estilo de vida glamouroso que retratava em suas obras, junto à esposa Zelda Fitzgerald. O Grande Gatsby, publicado em 1925, vendeu modestamente em vida do autor e só se consolidou como obra central da literatura americana décadas depois de sua morte, em 1940, aos 44 anos.
O Que Cada Livro Defende
Macbeth
A peça começa com Macbeth e seu amigo Banquo encontrando três bruxas que profetizam que Macbeth se tornará rei. A partir desse momento, instigado pela própria esposa, Lady Macbeth, que o pressiona repetidamente a agir, Macbeth assassina o rei Duncan enquanto este é hóspede em seu próprio castelo, quebrando não apenas uma lei, mas um código de hospitalidade considerado sagrado na época.
Shakespeare constrói a peça como um estudo da deterioração psicológica que segue um crime cometido por ambição: Macbeth, antes um general respeitado e leal, torna-se um tirano paranoico que mata cada vez mais pessoas para proteger o trono conquistado de forma ilegítima. A peça defende que o poder obtido por meios corrompidos nunca traz a paz que prometia, apenas mais violência necessária para mantê-lo.
O Grande Gatsby
Jay Gatsby nasceu James Gatz, filho de fazendeiros pobres, e reinventou completamente a própria identidade após se apaixonar, na juventude, por Daisy, uma jovem rica que ele não podia sustentar na época. Anos depois, já rico através de negócios nunca totalmente explicados no livro, Gatsby compra uma mansão do outro lado da baía em relação à casa de Daisy, agora casada, e organiza festas extravagantes na esperança de que ela apareça e perceba sua transformação.
Fitzgerald constrói o livro como uma crítica ao sonho americano e à crença de que riqueza material pode comprar de volta o tempo perdido ou recriar um passado idealizado. Gatsby não busca apenas Daisy, busca a versão de si mesmo e do mundo que existia antes de tudo se complicar, e o livro defende que essa busca é, por definição, impossível de satisfazer, porque o passado idealizado nunca correspondeu inteiramente à realidade.
Onde Concordam
Os dois livros concordam que a ambição desenfreada distorce a percepção da realidade de quem a persegue. Macbeth passa a peça inteira interpretando profecias de forma conveniente aos próprios desejos, ignorando avisos óbvios sobre o caminho que está seguindo. Gatsby constrói uma versão idealizada de Daisy que ignora completamente quem ela realmente é, uma mulher superficial e covarde nas decisões mais importantes da própria vida.
Onde Divergem
A divergência está na natureza do objeto perseguido. Macbeth busca poder político concreto, mensurável num trono e numa coroa, e usa violência direta para obtê-lo. Gatsby busca algo abstrato e talvez impossível desde o início, recuperar um amor e um tempo que já passaram, e usa riqueza e reinvenção pessoal como meio, não violência direta, embora a riqueza tenha origem em atividades ilegais sugeridas ao longo da narrativa.
Tabela Comparativa
| Aspecto | Macbeth | O Grande Gatsby |
|---|---|---|
| Período de escrita | Por volta de 1606 | 1925 |
| Objeto da ambição | Poder político, o trono da Escócia | Amor idealizado e status social |
| Método para obter o desejo | Assassinato e violência direta | Riqueza obtida por meios obscuros |
| Papel do passado | Profecia que aponta para o futuro | Memória idealizada que aprisiona o presente |
| Figura de influência | Lady Macbeth, que pressiona a ação | Daisy Buchanan, que nunca corresponde ao ideal |
| Final | Morte violenta e queda do protagonista | Morte solitária e desilusão completa |
O Que Um Completa no Outro
Macbeth mostra ambição voltada para frente, em direção a um futuro de poder que parece alcançável através de ação violenta direta. O Grande Gatsby mostra ambição voltada para trás, em direção a um passado idealizado que nenhuma quantidade de riqueza ou reinvenção pessoal consegue realmente recuperar. Lidos juntos, os dois livros sugerem que a ambição destrutiva pode atacar em duas direções temporais diferentes, mas com o mesmo resultado: a incapacidade de viver plenamente o presente.
Há também uma diferença reveladora na forma como a sociedade ao redor reage a cada protagonista. A corte escocesa de Macbeth eventualmente se volta contra ele de forma explícita, organizando resistência armada. A sociedade que frequenta as festas de Gatsby aceita sua riqueza enquanto ela é útil para o próprio entretenimento, mas abandona completamente sua memória após a morte, revelando uma forma de crueldade social mais silenciosa, porém igualmente devastadora.
Outro ponto de contato entre as duas obras está na presença de um observador próximo que testemunha a queda do protagonista sem conseguir impedi-la. Em Macbeth, esse papel cabe parcialmente a Banquo, amigo que desconfia da ambição crescente, mas é assassinado antes de poder agir com clareza. Em O Grande Gatsby, esse papel cabe a Nick Carraway, que acompanha cada decisão de Gatsby com crescente desconforto, mas nunca intervém de forma decisiva. Essa figura do espectador impotente reforça, nas duas obras, a sensação de que certas trajetórias de ambição, uma vez iniciadas, seguem um curso que ninguém ao redor consegue realmente desviar, por mais clara que seja a advertência percebida a tempo.
Para Quem é Cada Livro
Macbeth é recomendado para quem se interessa por tragédia clássica, linguagem shakespeariana e estudos sobre poder, culpa e deterioração psicológica. É uma peça relativamente curta, ideal também para quem prefere teatro a romance, e funciona bem como primeira leitura de Shakespeare para quem nunca teve contato direto com sua obra.
O Grande Gatsby é recomendado para quem se interessa pela cultura americana dos anos 1920, crítica social ao sonho americano e prosa mais lírica e enxuta. É um romance curto, lido geralmente em poucas sessões, e particularmente ressonante para quem já vivenciou a sensação de idealizar demais uma pessoa ou um período do próprio passado.
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Macbeth mata para chegar ao trono. Gatsby levanta um palácio inteiro para ser digno de uma mulher que provavelmente nunca ia largar o marido por ele. Os dois querem coisas muito diferentes. Mas os dois constroem, aos poucos, uma prisão ao redor do próprio sonho — e a parte mais estranha é que ninguém obrigou nenhum dos dois a fazer isso. — Dani Silva
Perguntas Frequentes

O Preço de Confundir Desejo com Destino
Macbeth termina decapitado, abandonado até pelos próprios soldados, convencido até o fim de que as profecias ainda poderiam salvá-lo. Gatsby termina morto numa piscina, esperando até a última hora por um telefonema de Daisy que nunca chega, cercado por uma multidão de conhecidos de festa que não comparece ao próprio funeral. Os dois acreditaram, cada um à sua maneira, que o destino havia reservado algo especial para eles, e os dois pagaram o preço mais alto possível por essa convicção.
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Dani Silva é a criadora do blog *Dois Livros e Um Tema*, um espaço dedicado à conexão entre histórias. Apaixonada pela leitura e pela escrita, Dani compartilha análises sensíveis, comparações literárias e temas que atravessam diferentes obras, sempre buscando transformar livros em experiências mais profundas e significativas para seus leitores.







